quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O fim? Não...o recomeço! Fui um militar, e para mim, já deu. Fui!

"Não sou o movimento negro
Sou o preto em movimento
Todos os lamentos (Me fazem refletir)
Sobre a nossa historia
Marcada com glorias
Sentimento que eu levo no peito
É de vitória" (mv bill)



Há decisões que os Homens devem fazer.
Há Homens

Há decisõesHá o que haverHá o e que fazer
Com certeza existem mais "coisas" e "coisos" merecedores de serem acompanhados do verbo "haver".

Mas nada há de mais sublime do que a liberdade.
Não há liberdade.

Por isso, vivo num mundo quase sublime, mas jamais terei a perfeição da sensação. Sei o que é ser quase quase, mas nada mais do que isso.

Há a minha quase liberdade.
Sou quase livre.

Dentre as opções que minha classe social me permitiu apreender no campo dos conhecimentos escolares cultos, eu pude ser "livre" para escolher entre algumas carreiras: geografia, biologia, pedagogia, letras...sociologia...e...putz, só lembrei destas.

Fiz Geografia. E dentre as possibilidades limitadas que minha área de estudo me ofereceu, consegui ser "livre" para...ser professor de...Geografia!Pois bem. Nesta minha "liberdade", pude ser livre para "escolher" me vender para colégios...horríveis, e outros piores. No meio termo estavam os péssimos. Aqueles que você vê no 2º andar sobre o acougue do bairro, subindo aquela escada íngreme a beça e que te faz desistir de perguntar sobre "planejamento pedagógico".

Ainda sendo “livre”, ou quase isso, fui vendo que o´s colégios privados se repetem.
Na verdade são tais quais aqueles agentes clones dos filmes Matrix, lembram? Você começa acreditando que são diferentes mas...quando os olha outra vez, se tornam a mesma figura.E, acreditem, sua péssima qualidade faz o mesmo mal quanto as pistolas dos agentes da Matrix.Me sinto um NeYo!Não o rapper beiçudinho, mas o do filme.Tive que conhecer o outro lado da moeda para descobrir que ao invés de moedas de dois lados, o mundo se constitui em um pequeno globo de borracha que é equilibrado no focinho de um porquinho adestrado se equilibrando com patins sobre uma bola de boliche.

Estamos na mesma.
Me senti “livre” quando “optei” por me tornar professor concursado do Estado, ganhando 540 reais. Que liberdade!!!

Depois, quando o Estado me ligou me dando a “liberdade” de lecionar Física, Matemática, Espanhol, Inglês, Química, Artes, Religião, outras disciplinas e até...Geografia para um projeto da Fundação Roberto Marinho, me senti “o escolhido” da Matrix. Eu era “livre”.

Eu era “livre” para fingir que o sistema funcionava.
Eu era um Pinocchio. O sistema me contaminou, me drogou, entorpeceu e me levou a crises existenciais, que me fizeram abrir processos contra diretoras, coordenadoras, reclamar com a Fundação, com o coordenador da Mteropolitana, a...chamar a Polícia na minha escola. Por ter sido ameaçado e ofendido por um aluno maior de idade.

Tudo isso para...me sentir “livre”.E livremente fui chamado de louco por diretora, por superiores, por querer o certo...me disseram “é só fingir que dá aula e a gente te paga, porra! Pra que inventar caso! Eles querem diploma, dá isso a eles!”

Ah, eu era livre, sim!Ao menos fiz a monografia que eu QUIS, estudei o tema que quis, abri mão de orientador, fiz 154 páginas de algo que me limpou o sangue negro, a alma, enegreceu minha convicção de ser um preto em movimento...glorificou minha história.

Minha pós seguiu o mesmo caminho, e nisso, fui trabalhar no IPEAFRO.
Lá, conheci Abdias, Elisa, Clícea, Carlos Henrique.
Ali fui feliz...

Ali me apareceu a oportunidade de...me tornar oficial da Marinha.Mas...eu?Marxista, cabeludão, do contra, é...isso mesmo.Sobre a Marinha muito tenho a escrever, ainda. Não escreverei por ainda ser militar da FAB.

Pedi para sair, em Outubro de 2011, pois havia passado pra Oficial da Força Aérea Brasileira.

E achando ainda que sou “livre”, ao mesmo tempo estive tentando o concurso para Professor I 40H de Geografia, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

Passei! Em primeiro na minha coordenadoria, em 3º no geral, para mais de 3200 professores de Geografia que se candidataram.

Opto, pois, neste momento, após muito avaliar prós e contras, por dar por finalizada minha experiência como militar brasileiro. Ao menos, sou “livre” para tal.

Aprendi (junto aqueles que um dia espero que, inicialmente, reagirão de modo violento à implantação de uma nova ordem psicosocio-política que pretendo plantar nas escolas públicas) a desenvolver habilidades que me levarão ao exercício de liderança mais qualificada para uma revolução na qual, sinceramente, eu tenho que acreditar.

Me pensei “livre” para fazer tantas opções, tantas mudanças, tantas ousadias e realmente ter feito História por onde caminhei por ser, “livre”. Eu não o era, mas eu criei uma liberdade que nenhum Estado ou agente armado pode me tomar: A LIBERDADE DE PENSAR!

Adepto do livre pensar, ao invés de me ver PRESO ao destino manifesto de ser o pobre coitado e infeliz professor de Geografia preto e pobre carioca, me construí forte e relevante, ainda professor de Geografia, preto, carioca, de renda média.

Eu criei minha liberdade...a partir de uma escolha tão...”boba”, que fiz em 2001: fazer Geografia.

Sinceramente, não imaginava ter vivido um milésimo de tudo o que vivi, até hoje. Passar por duas Forças Armadas, ter dado aulas em mais de 10 municípios do Rio de Janeiro, mais de 30 escolas (creio que 41), e ter visto o que vi, aprendido o que aprendi, e ensinado o que ensinei, com atos, palavras e sentimento (e crítica), me tornaram livre.

Me ensinaram a ser Homem, e sou um Homem;
Sei que existem decisões, e as tomo;
Sei que existem coisas, e as interpreto e classifico; assim, as utilizo ou não;
Sei que o verbo “haver” tem muito mais coisas a colocar em minha vida do que jamais imaginei.

Volto, e agora, mais forte, convicto de minas crenças, enriquecido de esperança num mundo desesperançoso, venho para cumprir minha real missão: educar crianças, e ser educado por elas.

Sou um homem hoje muito triste pela decisão que tomei, muito mesmo, escrevo isso com vontade de chorar. Porém muito forte pelo que o futuro me reserva.

Afinal, é mole ser bom professor em um ambiente perfeito, com alunos selecionados, tudo no lugar e hierarquia manifesta.Eis que eu SEREI bom e socialmente relevante no oposto. É o meu desafio.

Obrigado UERJ, FFP, IGEO, Andrelino, Catia Antonia, Renato Emerson, Tâmara Tânia, Abdias, Elisa Larkin, IPEAFRO, Cláudio Barbosa (R.I.P.), Emanuel Carneiro (R.I.P), Regina, Roberta, Risla, Tenentes: Adolpho, Pedro Paulo, Claudia, Eveline, Aline, Barretinho, CC ANTUNES (comandantê), amigos da FFP, Bruno, Barata (traíra) e todos aqueles que aqui estiveram.

Vamos fazer o melhor hoje. Porque semana que vem...pode nem chegar!


O Preto em Movimento – MV BILL

Não sou o movimento negro
Sou o preto em movimento
Todos os lamentos (Me fazem refletir)
Sobre a nossa historia
Marcada com glorias
Sentimento que eu levo no peito
É de vitória
Seduzido pela paixão combativa
Busquei alternativa (E não posso mais fugir)
Da militância sou refém
Quem conhece vem
Sabe que não tem vitória sem suor
Se liga só, tem que ser duas vezes melhor
Ou vai ficar acuado sem voz
Sabe que o martelo tem mais peso pra nós
Que a gente todo dia anda na mira do algoz
Por amor a melanina
Coloco em minha rima
Versos que deram a volta por cima
O passado ensina e contamina
Aqueles que sonham com uma vida em liberdade
De verdade
Capacidade pra bater de frente
E modificar o que foi pré-destinado pra gente
Dignificar o que foi conquistado
Mudar de estado, sair de baixo
Sem esculacho é o que eu acho
Não me encaixo nos padrões
Que vizam meus irmãos como vilões
Na condição de culpados
Ovelha branca da nação
Que renegou a pretidão (Na verdade é que você...)
Tem o poder de mudar ' RAPÁ'
Então passe para o lado de cá, vem cá
Outra corrente que nos une
A covardia que nos pune
A derrota se esconde no irmão
Que não se assume
Chora quando é pra sorrir
Ri na hora de chorar
Levanta quando é pra dormir
Dorme na hora de acordar
Desperta
Sentindo a atmosfera, que libera dos porões
E te liberta (Sarará criolo...)
Muita força pra encarar qualquer bagulho
Resistência sempre foi a nossa marca, meu orgulho
É bom ouvir o barulho
Que ensina como caminhar (Eu estou sempre na minha...)
Não vou pela cabeça de ninguém
Pode vir que tem
Agbara, Ôminara, Português, Faveles ou em Ioruba, Axé
Pra quem vai buscar um acue
E deixa de ser um qualquer
Já viu como é
Preto por convicção acha bom submissão
Não, da re no Monza e embranquece na missão
Tem que ser sangue bom com atitude
Saber que a caminhada é diferente pra quem vem da negritude
Que um dia isso mude
Por enquanto vou rezar pro santo
E que nós nos ajude

sábado, 19 de junho de 2010

Lembranças de uma infância banal: como nasce um professor do futuro

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara
(José Saramago. Ensaio Sobre a Cegueira)

Diversos motivos explicam o fato de eu ser professor de Geografia. Diversos momentos explicam meu modo de lecionar. Diversos processos explicam o que ensino. Diversidade espaço-temporal-simbólica é uma característica de minha vida e, acredte, da sua.

Leciono Geografia, e buscando em minha infância lembro de passagens que antecipavam minha necessidade brutal de conhecer mais e mais o mundo. Acordava sempre para ver Globo Ecologia, Globo Ciência e Globo Rural. Eu adorava saber o preço da saca de café conilon, e da arroba do boi no Mato Grosso do Sul. Entender como a poluição se concentrava na atmosfera de São Paulo me dava frio na barriga e excitação pelo tema. Quando eu lia o jornal, só me interessava pelas partes de Esportes e Economia. A última me rendia longas conversas sobre política econômica e industrial no Brasil e noutras partes do globo. Mas eu também brincava, jogava bola, rodava pião, andava de bicicleta e me ralava todo caindo no chão, andei de skate, ia a praia, passava as férias de Julho e fim de ano na casa de meus tios Walmir (in memoriam) e Rita. Eu gostava de estar num bairro diferente. Me fazia bem o novo.

Organizar-se já é de certa maneira, começar a ter olhos
(José Saramago. Ensaio Sobre a Cegueira)

Quando era época de Copa do Mundo, comprava as revistas da Copa, e nelas encontrava informações sobre os países participantes: idiomas falados, religião, culinária, população e os diferentes tipos de mulheres bonitas de capa país eram a cereja do bolo chamado Copa do Mundo. Eu queria ir para a Holanda. As meninas holandesas que apareciam nas filmagens de torcida eram...ai...incríveis. Ainda são!

Aí eu me dedicava a ver semelhanças dos nomes dos jogadores de cada país, e descobri que, pelas bandas da Holanda, os homens costumavam se chamar "Von", "Van". Enquanto outros países possuíam nomes muito próximos, me questionava o por quê do Brasil não possuir um padrão: Careca, Romário, Bebeto, Dunga, Ronaldo, Mauro Silva e Zico não formavam um conjunto linguístico homogêneo. Eu ainda não era consciente de nossa esquisita formação territorial.

Ao utilizar meu computador 486 (modernooo), eu buscava joguinhos típicos de crianças de época: Fifa Soccer, Elifoot, Carmem San Diego eram comuns. Carmem era um joguinho esquisito, pobre de grafismo, mas rico em informação geográfica. Perseguia bandidos, sempre lendo as listas de dicas e pistas que eram dadas acerca do paradeiro dos bandidos. Eram dicas simples, mas com bom conteúdo geográfico. Aprendi a buscar em livros por estes jogos.

Aos domingos, assistir ao Fantástico, além de me fazer tremer de medo com as supostas imagens de eventos grotescos como a possível autópsia do ET da Área 51, eu via imagens dos enlatados do Discovery Channel e BBC, que recheiam o programa, mostrando profundezas dos mares, ou a migração dos golfinhos. Adorava Jacques Cousteau. E me tornei meu próprio Jacques.

Não é caro criar um pesquisador de qualidade na infância. Eu jamais fui uma criança de exigências caras. O interesse que nascia em mim pela pesquisa era o mesmo que hoje exijo de meus alunos, no Colégio Naval, única instituição de Ensino Médio da Marinha do Brasil, localizado em Angra dos Reis. Lembro que eu fiz Geografia porque meu professor de 5ª série até o 1ºano do Ensino Médio, Emanuel Carneiro, faleceu.

Eu era apenas um adolescente, e chorei muito ao saber, duas semanas após ve-lo, que ele morreu após uma cirurgia de retirada de um tumor no cérebro. Ele usava um anel de ouro com uma grande "jujuba" de rubi, e era engraçado. Amava o Lula, deixando a barba crescer em anos eleitorais. Usava camisa da Redley florida e calça da Company. Era um bom professor, e não comentei que na escola, era minha matéria favorita. Soube estimular minha facilidade natural por Geografia, e minha humana e simples capacidade de me indignar.

Acho bonito lembrar de nosso passado. Ao olhar para trás, entendemos os por quês de estarmos onde estamos hoje. E assim, somos capazes de planejar a vida e protetarmos nossos destinos no futuro. Quero ser lembrado como um bom professor. Aprendi iso com pessoas como Emanuel, e tornei isso minha opção por fé. Tenho fé no conhecimento. Ele liberta. Este é meu testemunho.

O mundo é confuso e confusamente entendido
(Milton Santos)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Variações sobre um mesmo tema

Todas as citações desta postagem são trechos da música VARIAÇÕES SOBRE UM MESMO TEMA, dos Engenheiros do Hawaii (Humberto Gessinge e Augusto Licks), na ordem completa, sem faltar nenhum pedaço. Leia e ouça-a: http://letras.terra.com.br/engenheiros-do-hawaii/45769/

"Eu tenho os meus problemas, você tem os seus
variações de um mesmo tema, ateus procurando Deus
eu tenho os meus problemas, você tem os seus
variações de um mesmo tema, dylan e seus dilemas"


E hoje eu acordei bem, dormi cedo, li um pouco e dormi. Pensei em toda a minha vida, mas ela me fez dormir no segundo pensamento. Vida entediante ou muito densa para ser pensada à noite?

Será que estou crescendo ou involuindo nesta nova experiência militarista-nacionalista fandango-angrense na qual me meti nos últimos meses? Boa pergunta. Ótima pergunta! Porém confesso temer a resposta.

Cidade emo, com ruas vazias as 19h da noite, na qual as mulheres aparecem grávidas e me pergunto como elas fizeram pra arrumar homem e vice versa, pois não vejo pessoas nas ruas. Já trabalhei em tantos lugares, mas este com certeza consegue superar tudo o que vivi. Eu preferia Morro Agudo em Nova Iguaçu? Não sei, também chegar a esse ponto seria sacanagem minha. Mas me sentia mais local lá do que aqui. Esquisito. Eu assim, cheio de problemas e recebendo dinheiro, mudando e classe social, de mundo, vida, perspectiva, e saldo bancário, de tudo. E as perguntas não param!

"?onde estamos? ?pr'onde vamos? ?onde já se viu?
num retrato, num espelho, no mapa do brasil
?qual é seu signo? ?que sangue você gosta de sugar?
?qual é o seu limite (se é que ele existe)?
se não existe, ?qual é"


Não conheço meu limite, mas sei que circundo o mesmo a todo momento. Há um jogo estranho entre minha consciência e inconsciente, individual e coletivo. Um faz escolhas, o outro cria as alternativas. Complementam-se e eu fico assim, a reboque do que estes dois brincalhões me ordenam. Máquina e operador de máquina se misturam.

"eu tenho os meus problemas...
?onde estamos? ?pr'onde vamos? ?onde já se viu?
num retrato, num espelho, no mapa do brasil
?qual é seu signo? ?que sangue você gosta de sugar?
?qual é o seu sexo (se é que ele existe)?
se não existe o complexo, ?qual é?"

Cito a experiência do rapaz que foi a primeira vez numa festa e encheu a cara. Durante era legal, mas depois a ressaca foi brutal. Vivo uma ressaca contínua de lembranças do passado, saudades de amigos, de pai, mãe, irmão, sobrinho,.... saudades da sessão da tarde, de andar a pé domingo de manhã pra comprar pão. De recusar papel de agiota na passagem férrea de marechal. Eu parecia em paz, mas digo isso vendo pelo ângulo de hoje. Naquela época eu achava que paz era o que vivo hoje. E onde será que encontro a paz?

"não procure paz onde paz não há
não procure alguém onde não há ninguém
não procure um céu azul no mar vermelho
não procure outras pessoas no espelho
não procure mais, 'tá tudo aí
e ai de nós se o disco acabar
se o rastro ficar invisível a olho nu
pois nossos olhos não usam black-tie"


Cansei de buscar, vou tentar não buscar, mas cansei de não buscar, vou ali fora, sair dessa lan house, hoje fiquei fazendo questões de prova, atendendo a alunos da Companhia do Colégio Naval e vivendo a burocracia. Não é ruim, confesso. É bom gerir, ajudar, ser útil.

É o que me falta. Me sentir útil de um modo ativo, não sendo mais um. Talvez esse papo de servir a Pátria tenha soado estranho a minh'alma, e me feito acreditar que seria alguém diferente, mas importante para a Nação. Muitas vezes eu fui importante fazendo coisas que não notava serem o mesmo. Qu esta seja uma delas.

"ouça o que eu digo: não ouça ninguém
ouça o que eu digo: não ouça ninguém
só obedeça à lei da infinita highway
o piloto automático não leva a nenhum lugar
(não, não ouça o que eu digo: não ouça ninguém)
o piloto automático não leva a lugar nenhum
(não, não ouça o que eu digo: não ouça ninguém)
...não ouça ninguém"


Mesclei meu dia com as saudades de quem tornou meu final de semana especial.
Sem mais: Renata.
Estranho olhar de longe a vida de alguém e enxergar coisas que são minhas, que pensei ou penso e se identificar de modo tão doce com esta gente.

Que o tempo melhore em Angra, e que deste modo eu consiga proporcionar felicidade para mim, através do brilho dos olhos escuros e da boca larga dela.
No meu momento de medo, sentir-se fonte de segurança contra o medo de uma menina me fez muito bem;

São marcas que se somam, e ocasionam estes dois efeitos colaterais, estes seis bilhões de efeitos colaterais... renata, breno, e todos os nossos gêmeos de experiências mundo afora.

Somos variações sobre um mesmo tema. Renata, Breno e seus problemas.
Não adianta fugir, a nossa maior luta é sempre para se sentir feliz, nada mais do que isso.
Não entendo o mundo, mas confesso que tento, do fundo do meu coração,
através de universos paralelos, copos de cerveja, e livros de David Harvey.

"Não tenha medo: nem tudo tem explicação
há mistério em quase tudo, nem todo veludo é azul
o coração sempre arrasa a razão
o que é preciso ninguém precisa explicar
o mundo é muito grande p'ra quem anda de avião
p'ra quem anda sem destino ele cabe na palma da mão
o coração sempre arrasa a razão
o que não tem explicação ninguém precisa explicar
o sol ainda se levanta no meio de tanta confusão
no meio da madrugada ele ilumina o japão
o coração nunca cansa da canção
o que tá escrito na canção
ninguém precisa aceitar"


Renata, um beijo enorme. Garçom, uma dose de Renata (existe uma cachaça com esse nome, e não mora em Campo Grande!) e uma sardinha frita, por favor!

domingo, 30 de maio de 2010

Começar de novo, agora com mais leveza

Silêncio! ...
Ok, agora posso falar...

"No beco escuro explode a violência
No meio da madrugada
Com amor, ódio, urgência
Ou como se não fosse nada
Mas nada perturba o meu sono pesado
Nada levanta aquele corpo jogado
Nada atrapalha aquele bar ali na esquina
Aquela fila de cinema
Nada mais me deixa chocado
Nada!" (herbert vianna)

Nunca consegui observar um rosto triste e não me sensibilizar. Nunca consegui conhecer uma mulher linda e muito simpática que não conseguisse me cativar. Eis Renata Braga, nome curto, mulher extensa, enorme, ampla e infinita: POR DENTRO!

E quando nada no mundo consegue parar o trânsito, nada no mundo faz diferença efetiva, nada nos faz observar a existência desumana que nos faz, é foda! Vivemos tempos tristes, onde pessoas fingem amor, outras fingem sentir dor, e a gente vive fingindo ser normal tanto fingimento, tanta falta de bom senso. Se ninguém sente, você sente. E essa é uma de suas enormes belezas, que não força para agradar, e o faz sem perder a naturalidade de menina jovem.

"Me espanta que tanta gente sinta a mesma indiferença!" (Humberto Gessinger)

"São todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais que os outros!" (Humberto Gessinger) E eis que no meio de tanta igualdade sem sensibilidade encontrei em 2005 uma tristeza com alegria, temperada de juventude e sonhos em corpo de recém-mulher, que abarcou meu coração, e eu me vi conhecendo uma dor em outra pessoa que eu não entendia. Tristesse.

Anos depois, reencontro, e parece que a via todos os dias, o som da voz é o mesmo, o rosto, o corpo e a mente, completos e perfeitos em si. Ouço o ruído de um suspiro, e lembro de que já vivi isso, e de nada bastaria ensinar caminhos, pois a mente só se cura quando pode, quando o querer e poder se combinam.

É BREGA escrever um post para uma amiga triste.
É BRAGA escrita mais bonita que me impele a ser brega.

E é assim que se cura o amor. Com frases de parachoque de caminhão, com choros que parecem infindáveis, com sensações que parecem estranhas, e a certeza de que se viveu algo único.

O tempo-espaço é insubstitutível e jamais se repetirá. Esta dor de agora é o reconhecimento de que amar vale a pena, pois saudades ficaram, lembranças, o vazio daquele beijo que...

findou-se.
acabou. ou não...
tentar não pensar talvez não adiante...então pense, mas doutrine os pensamentos, de grão em grão, tristeza em alegria, transformando saudades em esteio.

Mas nada se perde, nada mesmo. Investir em você, por meio de outra pessoa, e em breve o amor se recicla, vale a pena. Relaxe. Afinal, como a musiquinha de amor brega do Kid Abelha diz:

Maio
já está no final
O que somos nós afinal
se já não nos vemos mais
Estamos longe demais
longe demais

Maio
já está no final
É hora de se mover
prá viver mil vezes mais
Esqueça os meses
esqueça os seus finais
esqueça os finais

Eu preciso de alguém
sem o qual eu passe mal
sem o qual eu não seja ninguém
eu preciso de alguém


E lembre-se:

"No beco escuro explode a violência
No meio da madrugada
Com amor, ódio, urgência
Ou como se não fosse nada
Mas nada perturba o meu sono pesado
Nada levanta aquele corpo jogado
Nada atrapalha aquele bar ali na esquina
Aquela fila de cinema
Nada mais me deixa chocado
Nada!"

(EXCETO O AMOR, RÊ BRAGA! AME, densamente, DEMASIADAMENTE!)

Obs.: Mais Lapa, mais vida. Ilha Grande e pequena grande vida! Ser jovem enquanto se é, até que a idade mais a experiência nos mostre algo novo. Pode usar salto alto, você fica do meu tamanho! Rs. Tenho saudades profundas de hoje, e de você aqui, como uma gata, uma de suas gatas, acanhada no sofá, sorrindo sem ter para que, sentindo o que é viver.

domingo, 9 de maio de 2010

Um mês em angra. Dia das mães e ociosidade!

Um mês e 8 dias trabalhando em Angra dos Reis. Data marcante? Que nada, só mais uma data. Coincidentemente hoje é Dia das Mães, e isso sim é, levementemente, marcante. Se bem que é tanta data que nem sabemos o que cada uma significa: das crianças, dos santos, das mães, pais, do geógrafo, da independência, da guerra do paraguai, do soldado, da reública, ...

A vida teria que ser uma festa para comemorar tantas coisas! Mas continuo de pé, seguindo na luta, graças a cerveja, a chopp e ao churras! Voltemos a angra.

Imagina morar numa casa dentro do seu trabalho. Sua casa ser no sopé de uma encosta, e esta encosta ser de uma floresta densa como a Mata Atlântica! É...humidade intensa, de modo que sua toalha de banho não segue em 3 dias. Isso seria moleza, não fosse a inexistência de vizinhos, a distância da cidade ser de 15 min andando, e uma fauna de insetos de encher os olhos de biólogos de plantão. ATé que na semana que passou não tive que pisar em nennum caramujo africano... Aquilo é nojento! Mas põe nojento nisso. Imagina um bicho sem ossos, gelatinoso, feio, com uma concha de 15 cm, que dá toda pinta q nem se importa de passear por seu jardim. PqP!

A rotina tem sido assim:
Segundas Terças e Quartas-feiras entro 8h no trabalho. Então acordo 7 e meia da manhã, tomo um banho, tento me secar com a toalha q ñ seca nunca, passo roll-on no suvaco, malbec aerosol no tronco, coloco uma camisa branca limpao uniforme da marinha, passo graxa no sapato, lustro, arrumo a bolsa, passo gel no cabelo, hidratante no braço, malbec no pescoço e ante braço...

Saio! 3 minutos andando em pedras, areia, as vezes lama e poeira. chego ao prédio do COMCA com o sapato levemente sujo. Limpo ele passando atrás da minha perna contrária. Depois vejo que sujei a calça. Limpo. Bom dia COMCA, bom dia IMCA! Bom dia Ten Télis! Enfim, minha mesa, o que tenho pra fazer? E intercalo trabalho com pesquisas para a aula que tenho que dar nesta semana.

Quintas e Sextas feiras, eu leciono de 7h a 12:20. Aí sim, este é o meu campo. Nada de bom dia aos comandantes. Tenho q acordar 6h da manhã, mas com alegria. Espeto meu pen drive no pc da sala, ligam o projetor do teto e largo a lábia. A tarde, boa tarde COMCA, IMCA, Ten Télis...

As 17h de todos os dias praticamente estou liberado. Liberado para...ir para minha casa bunker, isolada da civilização. Me recuso. Acabo ficando no trabalho até mais tarde, 21h, 22h, pesquisando, lendo notícias...

Infelizmente, alguns dos sites mais interessantes para dar aula, como youtube e sites de movimentos sociais ou redes sociais, são bloqueados, mas usando de wikipedia e pesquisas inteligentes, tenho me virado bem.

Nada que a minha cabeça não supere. Quartas-ferias vamos ao Clube Coqueiros ver os jogos do Flamengo, e isso será um problema, pois dando aula quintas-feiras tenho q dormir cedo, e provavelmente estarei preparando aula.

Mais tarde conto mais de minha vida em angra. Hoje foram detalhes da vida dentro dos muros do Col Naval.

Estou comprando uma câmera profissional para mim, então em breve voltarei a postar fotos no Flickr, Fotolog, Facebook e aqui. Por enquanto, sigo na casa bunker que não tem conexão 3g, esperando assinar velox. No mais, é isso mesmo. Aloha, estou vivo, e bem.

Qualquer boato não é boato. Fiz um grande negócio em entrar para a Marinha!
Vou ali ao shopping levar mamãe ao cinema para vermos Alice no país das maravilhas. Beijos!

terça-feira, 16 de março de 2010

Estou indo pra Angra!

Este será, com certeza, o post mais autobiográfico de toda a minha vida até o presente momento. Porém será aquele escrito sem lágrimas, sem dores, somente reportando.

Minha vida foi constituída de mudanças constantes na infância, como nascer no rio, ir para Recife, Guarulhos, Rocha Miranda, Honório Gurgel, Rocha Miranda e, enfim, Marechal Hermes.

Aqui, nesta casa de onde escrevo, vivi 15 anos. Esquisito, mas a gente se aninha ao nosso lar de um modo que torna o objeto em prolongamento de nosso corpo, ferramenta essencial a minha existência. Estou saindo de minha casa. Vou morar em Angra dos Reis a partir de 1 de Abril.

Saio de casa porque virei militar, Oficial da Marinha de Guerra do Brasil. Lecionarei Geografia no Colégio Naval, com certeza a melhor instituição de ensino médio do país. Por que eu?

Porque em algum momento a lei do retorno funciona. Fui cambaleando por entre problemas e dificuldades para fazer minha faculdade em São Gonçalo, na Faculdade de Formação de Professores da UERJ. Sofri, dei calote, passei fome, dormi na casa de 18 pessoas durante 5 anos. Vivi. Fiz minha pós, tentei os mestrados, e não deu muito certo. Passei, fui bem, mas aconteceram coisas que não me permitiram entrar, e é isso.


Hoje me sinto em um temporal esquisito. Faltava dinheiro, agora há dinheiro, mas falta plena alegria.

Que Angra dos Reis me surpreenda, e me mostre que todo sacrifício vale a pena. Serei o que sei ser: bom!

"Meu santo é fortes,
não tenho santo!

Logo, não há fraqueza, nem fortaleza,
maior que minha pele, fina e marrom,
escura e mesclada de cicatrizes que
desafiam a nobreza de minha existência.

Há tempos que não sei o que é ter medo,
e temo, sair daqui, levar meu umbigo,
meu inimigo que sou eu,
junto deixando meu melhor amigo,
meu habitat;

sinto que muita coisa será diferente,
e que encerro hoje um ciclo que se iniciou
vinte e seis anos e meio atrás.

Até logo, Breno!"


Volto em breve, mesmo que demore para acontecer


Abraços, torçam por mim!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Estatuto da Igualdade Racial – Entre o avanço e o atraso – Breno Mendes

Estatuto da Igualdade Racial – Entre o avanço e o atraso – Breno Mendes

Uma lei que se pretendia avançada, demonstra-se arcaica perante os avanços já praticados pela sociedade brasileira

O Estatuto foi aprovado pela Câmara dos Deputados em Setembro deste ano. Porém, no Brasil o problema de um sistema bicameral é o de que o que demora para ser aprovado por 513 deputados, ainda terá que ser aprovado sem modificações por mais de 90 senadores. Caso haja modificação, vai de novo para a Câmara.

Mas nos parece que ouve uma costura política delicada no projeto aprovado pela Câmara. A questão crucial era a que abordava a política de terras de remanescentes quilombolas, que, segundo palavras do deputado Indio da Costa (DEMOCRATAS-RJ), poderia criar “uma espécie de MST negro”. Onyx Lorenzoni (DEMOCRATAS-RS), disse que o projeto, após ser verdadeiramente retalhado na Câmara, perdeu o indesejável “germe da racialização”.

O texto que foi para o Senado está sem grande parte das considerações consideradas mais polêmicas pelo status quo brasileiro branco: ficaram de fora a regulamentação de cota de 20% de negros para filmes e programas de TV e o detalhamento da demarcação das terras de quilombolas. Outra proposição que foi cortada do projeto original foi a reserva fixa de cotas para negros nas instituições federais de ensino superior (universidades e afins). Ou seja, o estatuto não prevê cotas.

Segundo palavras do Ministro Edson Santos (SEPPIR), o estatuto é um ponto de partida que reconhece e dá visibilidade à questão negra. Me desculpe, mas RECONHECER a questão negra é dose! Ainda não haviam reconhecido? Mas perae! Dar visibilidade? E Desde primórdios, e Abdias, e Ivanir, e os pré vestibulares, e as campanhas? Não deram visibilidade?Nem Obama deu visibilidade? Precisamos de uma colcha de retalhos para isso? Ok se dizem assim...

Para entender, o texto prevê a “possibilidade” (isso sim, um estatuto fica anos tramitando para instituir a POSSIBILIDADE! Só no Brasil mesmo...) possibilidade de o governo criar incentivos fiscais para empresas com mais de 20 empregados e pelo menos 20% de negros.

Diz ainda que o poder público adotará ações afirmativas em instituições públicas federais de ensino mas não prevê cotas, e promoverá igualdade de oportunidade no mercado de trabalho. Parece bastante vazio. Também foi aprovada ainda uma cota de 10% para negros nas candidaturas a vagas da Câmara dos Deputados, Assembleias Estaduais e Câmara de Vereadores . Mas isso não parece alterar em nada o momento atual. Pois é possível eu ser líder de partido, colocar 10% de candidatos negros, porém as candidaturas que mais recebem dinheiro e tempo na TV serem de candidatos a vereador brancos ou similares.

A esperança é que seja aprovado até o dia 20-11-09, mas hoje é dia 3 de Novembro e só no dia 28-10 que Sarney recebeu representantes do Mov. Negro Nacional do PMDB (nem sabia que isso existia, sinceramente!). O Senado propaga que Srney foi o grande mentor das cotas nas universidades (sic): cf. http://www.senado.gov.br/agencia/verNoticia.aspx?codNoticia=96818&codAplicativo=2&parametros=igualdade+racial

A matéria do projeto de Lei de Paulo Paim está identificada no sistema do Senado, mas há uma defasagem de 5 anos na informação de tramitação, pois só vai até 2004: cf. http://www.senado.gov.br/sf/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=58268

Em diversos momentos, o Estatuto se aparenta com uma segunda Lei Áurea, ou Constituição Brasileira dos Pretos:
Art. 19. A população afro-brasileira tem direito a participar de atividades educacionais, culturais, esportivas e de lazer, adequadas a seus interesses e condições, garantindo sua contribuição para o patrimônio cultural de sua comunidade e da sociedade brasileira.

§ 1 º Os governos federal, estaduais, distrital e municipais devem promover o acesso da população afro-brasileira ao ensino gratuito, às atividades esportivas e de lazer e apoiar a iniciativa de entidades que mantenham espaço para promoção social dos afro-brasileiros.

A pergunta que faço é: Estes direitos não estão assegurados já na Constituição Federal? Logo, se um texto parecido e similar a este na Constituição, carta-magma do Estado brasileiro, não foi acatada e cumprida, criando tais vissicitudes e aberrações estatísticas quanto ao acesso da população negra brasileira ao ensino gratuito, de qualidade e à cultura, seria NECESSÁRIO um texto mais enfático. Mais prático.

Porém nem tudo é espinho. Há flores, e bons frutos no projeto. Porém,são poucos. Estabelece a obrigatoriedade de ensino e inclusão de uma disciplina chamada História Geral da África e do Negro no Brasil. Uma questão é como encaixar a disciplina, já que História somente possui 2 tempos semanais, assim como Geografia, Filosofia, Artes, Sociologia, Educação Física e outras. No futuro, uma ampliação em horas diárias do tempo de escola será urgente.

Art. 21. A disciplina “História Geral da África e do Negro no Brasil” integrará obrigatoriamente o currículo do ensino fundamental e médio, público e privado, cabendo aos estados, aos municípios e às instituições privadas de ensino a responsabilidade de qualificar os professores para o ensino da disciplina.

Parágrafo único. O Ministério da Educação fica autorizado a elaborar o programa para a disciplina, considerando os diversos níveis escolares, a fim de orientar a classe docente e as escolas para as adaptações de currículo que se tornarem necessárias.


Nos últimos anos no Brasil, diversas disciplinas se tornaram obrigatórias. Vide, após a escolha da cidade-sede para Olympics 2016, as autoridades terem instituído que teremos segunda língua estrangeira obrigatória em algumas escolas e a introdução já no ano que vem do Inglês para crianças do 1º ano (antigo C.A.) ao 3º ano do Ensino Fundamental. Em 2011, para 4º e 5º anos: http://noticiasrio.rio.rj.gov.br/index2.cfm?sqncl_publicacao=21489 . Pergunta de quem é professor de Geografia e se interessa no bom uso da escola: Quem dará aula da disciplina? Geógrafo, Historiador, Sociólogo? Para o autor deste texto, todos estes.


Outros artigos se mostram lixo burocrático. Vide o que chamo, sem medo, de gasto de tinta sem utilidade alguma:

Art. 22 . Os órgãos federais e estaduais de fomento à pesquisa e à pós-graduação ficam autorizados a criar linhas de pesquisa e programas de estudo voltados para temas referentes às relações raciais e questões pertinentes à população afro-brasileira.


Mais segue uma linha de LeiÁurea do século XXI, pois este artigo 22 dá margem a entendermos que antes do estatuto instituições como UFRJ, Unicamp, USP, UFF, CnPq, Capes, Minc, Fundação Palmares e outras não podiam criar pesquisas ou fomentar estudos acerca de relações raciais. Mais utilidade teria se afirmasse que tantos % dos recursos federais investdos em pesquisas seriam OBRIGATORIAMENTE investidos em estudos das dinâmicas raciais ou temas correlatos.


Os artigos 23, 24, 25 e 26 não citarei, pois seguem o mesmo absurdo. Reconhecer o direito à manifestação de religiões afro-brasileiras é me chamar de burro por acreditar que estava em uma democracia laica que permitisse liberdade de credo. REAFIRMAR O ÓBVIO SE INSERE NA PRÁTICA DISCURSIVA DE NEGAR A EXISTÊNCIA DESTE ÓBVIO ANTES QUE FOSSE ENUNCIADO PELO ENUNCIADOR DA LEI. A linguística trabalha bem com isso. O artigo 27 é interessante, pois permite ao fiel de tradições afro ou indígenas faltarem ao serviço para cumprir rituais e depois compensar a falta. Muito bom!


O artigo 29 é eficiente em coibir o uso de mídias para discriminar negativamente os fiéis. De novo o artigo 31 segue o mais do mesmo. Me dá a impressão de que a proposta original seria de que os orçamentos fossem obrigados a prever recursos para implementar ações afirmativas. Mas provavelmente há algum deputado que odeia a palavra OBRIGATORIAMENTE, e a substituiu em todos os artigos pelo artifício “poderão prever”, “poderão apoiar”, “poderão poderão”:

Art. 31. Os planos plurianuais e os orçamentos anuais da União poderão prever recursos para a implementação dos programas de ação afirmativa


Entendo, pois, que não podia então o orçamento federal prever tais recursos exceto com a promulgação desta lei. No artigo 31, VII § 1º, 2º, 3º se repetem : O Poder Executivo fica autorizado a adotar medidas que garantam; os órgãos do Poder Executivo Federal que desenvolvem políticas e programas nas áreas referidas no § 1º ficam autorizados a garantir; O Poder Executivo Federal fica autorizado a adotar as medidas necessárias


Outra vez, vemos o mais do mesmo. Dados práticos, com percentuais, regras, e similares, nada!

A razão básica para o Estatuto ser tão vazio de propostas factuais e de possibilidades reais está no CAPÍTULO VI “Do Direito dos Remanescentes das Comunidades dosQuilombos às suas Terras” . Este capítulo contempla 4 páginas do total de 32 do estatuto. Contrapõe-se ao ridículo tamanho do CAPÍTULO VIII “Do Sistema de Cotas” , que não contempla sequer uma página inteira.


Cabe problematizar:

- o estatuto da igualdade racial é realmente proposto, no atual momento, com a real intencionalidade de melhorar as condições de vida da população afro-brasileira?

- o estatuto da igualdade racial no modo como será sancionado tem alguma possibilidade real de minorar os sofrimentos das populações às quais este se destina?

- ou o estatuto da igualdade racial demonstra a vitoria dos detratores da questão racial brasileira? Pois nenhuma das questões abordadas é específica. Smente a questão do acesso à terra e da desapropriação de terras em benefício de quilombolas possui regras claras, detalhadas, procedimentos e institui toda a normativa.


Em nossa análise, este estatuto é, hoje, uma grande resposta retrógrada às possibilidades existentes até então de negros quilombolas obterem acesso a terras. Grosso modo, possui muito confete, muita purpurina, e muitas construções linguísticas típicas de atendimento de telemarketing: o governo federal poderá fazer, poderá estar fazendo, poderá decidir, poderá propor, poderá aprovar, enfim...como sempre, o governo poderá fazer tudo.

Mas, quando, efetivamente, fará algo?

Este texto é uma abordagem para o estatuto. Foi redigido para incitar debate com a Dra. Elisa Larkin Nascimento (www.ipeafro.org.br).


Link
para o Estatuto:
http://www.cedine.rj.gov.br/legisla/federais/Estatuto_da_Igualdade_Racial_Novo.pdf

Abraços,

Breno Mendes

Geógrafo

brenomendes@gmail.com

http://poeticainculta.blogspot.com

http://www.brenographia.com

 
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