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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

[URBE] A população se revolta contra o trem: Uh uh Nova Iguaçu!

Um dia o jovem senhor viu na televisão reportagem apresentando as condições de vida em Bangladesh. O país asiático é um dos mais pobres do mundo. As crianças deste país, quando entre 7 e 12 anos, trabalham semi-escravizadas em tecelagens artesanais do país, manuseando teares manuais. Trabalham de graça, por acreditarem que o trabalho é a coisa mais certa que podem fazer durante suas infâncias, para que suas vidas de adultos sejam ricas, e possam dar condições dignas para suas famílias. Estas crianças trabalham mais de 12 horas por dia, gratuitamente, e são analfabetas! Isso mesmo, pois nunca estiveram em uma escola. São contratadas pelo tamanho das mãos e...falando sério, são contratadas por serem baratas, eficientes e principalmente, por não reclamarem! Trabalham exploradas, escravizadas desde a menor infância, e não reclamam!

O jovem senhor se espanta com a passividade da sociedade bangladeshiana com aquilo que considera um "absurdo", "ultrajante" e algo que ameaça a "Dignidade da pessoa humana". O senhor levanta de sua poltrona, desliga a TV cedo, pois no dia seguinte vai trabalhar e acordar cedo. Vai de trem e metrô. Reside numa metrópole moderna, cosmopolita com ares provincianos que os estrangeiros acham delicioso; metrópole entre a montanha e o mar, com lindas praias e garotas de biquini. Reside no subúrbio, em bairro cortado por um muro de Berlim chamado TREM. A farmácia mais próxima fica a menos de 50m de sua casa, porém tem que andar 600m ao longo do muro de berlim-trem para subir uma passarela de concreto cujos vergalhões estão expostos por falta de conservação, descer a passarela, e fazer os mesmos 600m voltando, para encontrar a farmácia. Não há passarela perto de sua casa. Há tempos os moradores pedem por uma, sem resposta. Chegaram a fazer um buraco nos muros, para atravessarem rumo outro lado, porém...a companhia de trem o fechou.

Seu trem, pela manhã, não passa cheio. Passa entulhado. No entulho que carrega, estudantes, mulheres cheirosas e novas,mulheres cheirosas e velhas, mulheres comperfumes horríveis, senhores com bafo de cachaça da semana passada, senhores! Pessoas que vão trabalhar e estudar, na cidade entre a montanha e o mar. Pessoas que não moram perto do mar, mas muitas vezes residem em montanhas baixas, chamadas "morros". O trem não obedece lógica, não tem hora de chegar ou de partir, e nunca se sabe se opróximo será o trem mais moderno do mundo, ou um trem saído da primeira revolução industrial inglesa. O trem segue, o avião do trabalhador cria asas, e de tão cheio, se frear, milhares morrem esmagados. Deus protege. Óbvio que quem mora perto do mar na avenida Beira-mar estámais protegido. Ao menos, mais protegido de morrer esmagado no trem.

A cidade é linda, a paisagem é diversificada, e a Vista Chinesa, no alto da Floresta da Tijuca, permitindo avistar construções divinas naturais como o mar, a montanha, as matas, os barracos, a miséria e as balas traçantes durante a noite! De dentro de seu trem, o Cristo Redentor usa coletes, a prova de balas, e muitas vezes aproveita que já está de braços abertos para vender um cortador de unha no trem. É barato, é contrabando, é subemprego, é sabido, e é ignorado por todos. A maior multinacional de alimentos do mundo subcontrata os camelôs proibidos e lhes paga menos ainda. Trabalham vendendo, com sapatos furados, e sem dentes na boca. Caso não venda, pede, e pega uma criança de rua para servir de álibi, sensibilizando a todos no vagão. Tecnologia de marketing direto nascida nas ruas cariocas, aceitando moedinhas de um centavo ou um pedaço de pão. Mas preferindo uma nota de dois reais. Os seguranças da empresa de trem parecem envergonhados com a situação que passam estes camelôs, que são proibidos por lei de estarem ali, e para impedi-los é que se contratam os seguranças, mas a vergonha os força a virar de costas e fingirem que não viram. Pobres coitados dos seguranças.

O sistema de segurança do transporte do senhor é eficientíssimo. Saído diretamente dos programas do Discovery Channel, quando exibem cardumes inteiros fugindo de tubarões famintos. No trem é assim também, pois o povo se expreme, um por dentro do outro, assim nenhum larápio roupa o próximo. Caso algum delinquente resolva por opção deixar parte do corpo para fora do trem lotado por terem fechado as portas sem dar tempo de todos entrarem, os senhores da segurança (de quem) chicoteiam o senhor até que este sinta dor e se meta trem adentro. Recebe chutes, não respira, chega suado. Paga dois reais e cincoenta.

Paga mais dois reais e sessenta de metrô. Ou três e oitenta de "integração". Engraçado, mas sempre imaginou o senhor que integrar fosse tornar dois em um. Sem diferenciação. Sai do trem anárquico e entra no metrô facista. Não sabe qual é o pior. Se a anarquia do trem repleto de pedintes e vendedores, ou o facismo dos imbecis que entram e estacionam nas portas. Mas vai feliz. Caso queira urinar neste ínterim, o fará nas passarelas, pois não há banheiro. Seu sistema de trens e metrô foi privatizado em um contrato que estabelece regra peculiar e engraçada para ele, que não entende a quem a mesma beneficia. A lei diz:

O lucro será do doutor, e o din din pra comprar trem novo será de todo usuário, inclusive do senhor, pago pelo Estado.

O senhor chega ao trabalho, senta-se, cansado, após duas horas dentro de dois infernos metálicos, usurpado e mal tratado, destruído como cidadão e como carioca, e comenta com o amigo: COITADO DO POVO DE BANGLADESH! GRAÇAS A DEUS, NO BRASIL,SOMOS MUITO BEM TRATADOS!

Anos depois, se torna apresentador da Rede Record, ou secretário de transportes ou governador, e chama a quem se revolta com o trem de VAGABUNDOS.

Breno Mendes, um vagabundo

FIKA A DIKA: O choque do oportunismo e da realidade (Texto do Observatório da Imprensa sobre a reportagem de TV que explorou a miséria das crianças bengalesas por IBOPE): http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=545CID002

FIKA A DICA: A foto das "chupetas do trem", a segunda desta postagem, veio de um grande fotógrafo: http://www.flickr.com/photos/claudiolara/sets/1602444/

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

As ruínas da sociabilidade: Em São Bernardo professor chamou alunos de vagabundos. A culpa é de quem?

Ontem vendo TV me deparei com uma matéria no SBT que apresentava uma gravação feita pelo celular de uma aluna da 8ª série da EE Maria Iracema Munhoz, no Centro de São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo, em áudio, na qual o professor de Matemática afirmava que alunos, que discutima com ele, e se recusavam a parar de jogar baralho em sala de aula, eram vagabundos.

"Vagabundo, se você vem para cá e não quer fazer nada é vagabundo! E se seus pais não fazem nada por isso são dois vagabundos...três, você, seu pai e sua mãe!" (professor acusado)
Óhhhh! Ficou a sociedade estamental impressionada e chocada. É claro que em nosso Antigo Regime (vuulgo Feudalismo), a Nobreza sequer tomará conhecimento do ocorrido: os mandantes do Legislativo, Executivo e Judiciário estão pouco se lixando para as salas de aula, já que suas salas estão comPortinari, Di Cavalcanti e Romero Britto. O alto clero tabém não está muito aí pra hora do Brasil. Mas o Baixo Clero e a Plebe (A plebe é sempre rude, e põe rude nisso!) está em polvorosa.

O Baixo Clero de nosso Ancién Regimé se sonstitui de delegados formados na Estácio de Sá, policiais Miojo (formados em 3 meses), gerentes regionais de ensino, jornalistas de emissoras pobres, dentre outros. O delegado registrou queixa, pois teme que o Papa, representante do Alo Clero e figura de Deus na Terra, o prenda no fogo dos infernos. Os policiais investigarão, mesmo que escrevem iMvestigar! A gerente regional de ensino de São Paulo afirmou que está apurando o caso, e a jornalista fez a matéria, que não abordou a derrota da escola, a que não consegue mais gerar respeito por parte da sociedade; não se surpreendam, o Baixo Clero não pensamuitomesmo, ele executa. Gerencia crises, são os buchas do Alto Clero e Nobreza. Sempre foi assim.

A escola perdeu o tratamento respeito que recebia da sociedade...aquilo que conquistava. Ao tentarmos dar aula, somos os impositores, e situações de tensão como estas ocorrem mais do que o normal. Não defendo a ação do professor, mas observando o relato do caso, me coloco em sua posição, e o compreendo. Não é uma culpa única e exclusivamente da escola, mas de um modelo societário que foi implantado de modo trágico nas grandes cidades brasileiras.

Na mesma reportagem, os alunos da turma afirmam em tom jocoso: "E olha que a gente nem fez nada demais... (MAS COMO? JOGAR BARALHO NA SALA? ACEITAM UMA CERVEJA E UMA PORÇÃO DE CALABRESA, CRIANÇADA?:???)...na aula dos outros somos bem piores!" Assim! Na lata! Os alunos assumem fazerem de tudo para infernizar a vida de um cara que tem sua própria vida e que, ao contrário do frentista que pode um dia discutir com seu gerente e no dia seguinte voltar atrás, do advogado que discute com o cliente por estafa, do vendedor da DI SANTINNI que um dia ou outro me atende mal porque a mulher o traiu, o professor deve de novo ser o bastião da nobreza e da pureza societária de uma sociedade que não mais existe.

Isso que digo é essencial...a sociedade puritana e respeitosa não existe mais! Vivemos um Big Brother mal intencionado, onde alunos falam sacanagem com você para depois o chantagear, onde o prazer e o status e fazer com que eu bata na mesa, grita, peça pelo amor de Deus, mostre raiva. Este é o aluno que tem a chamada "moral", esse é "pedra". Ser "fechamento" é fazer vista grossa com eles e oferecer ponto em toda atividade de sala, em tempos da nota virar 20! Lamento pelo professor, mesmo. Sofrerá processo, e tomara que não perca o emprego. Na gravação, ele fala uma verdade absoluta e irrefutável: "Eu não estou aqui para perder tempo com quem não quer aprender!". Eu também não estou. Temos que tentar nos controlar nas palavras, mas espero que o Estado o proteja e o defenda, visto que as situações de trabalho são desumanas e somos expostos a estresse desnecessário, fundamentalmente graças a inoperância de encarregados em níveis superiores: Coordenadores, Diretores, Gententes, Secretários de Educação, Legisladores, Juízes e Prefeitos/Governadores/Ministros/Presidente. Que seu advogado consiga argumentar tal tese.

Veja o estresse pelo qual passo nesta semana: Estou com meu pé enfaixado, imobilizado. Sou profissional de educação, e não posso ficar mais de 3 dias em casa, pois o Estado me obriga a, após o 3º dia ausente por motivos médicos, ir à escola, pegar um papel com a diretora, e depois ir ao centro do Rio de Janeiro dar entrada no pedido de perícia, que será marcada e eu terei que ir de novo, fazer e então entrar em licença médica. Porém, meu salário é de 547 reais, e tenho outros 800 reais mensair de hora extra, para complementar a renda. Se entro de licença, não receberei mais do que 547 reais. Quando eu voltar às aulas, minhas turmas de dobra de carga horáriaterão sido dadas a outros professores, e ficarei recebendo apenas os 547. Há condições de se trabalhar dignamente em condições tais como estas?

Em tempo. No fim da reportagem, uma professora aparece dándo uma dedada para o câmera, e aqui eu também faço o mesmo! Ponto!

Tenho uma série de posts sobre as condições precárias do professor público no Rio de Janeiro, e por que não em todo o Brasil. Aqui estão os links.

Matérias no meu Blog Poética Inculta:
O caos da educação pública no Rio de Janeiro
http://poeticainculta.blogspot.com/2009/09/o-caos-da-educacao-publica-no-rio-de.html

Amizades perfeitas, cerveja e crise educacional
http://poeticainculta.blogspot.com/2009/08/amizades-perfeitas-cervejas-e-crise.html

Ser professor no Rio de Janeiro: Maldição ou passaporte pro céu?
http://poeticainculta.blogspot.com/2009/07/ser-professor-no-rio-de-janeiro.html

Matérias no meu site BrenoGraphia.com.br :
Livro didático, educação e idéias
http://www.brenographia.com.br/2009/02/livro-didatico-educacao-e-ideias/

Como tratar um profissional da educação
http://www.brenographia.com.br/2009/02/como-tratar-um-profissional-da-educacao-2/


Você pode ler a matéria deste caso aqui!


Salve estes links e depois leia, com certeza terá um quadro bastante abrangente do que é ser professor na atualidade.
 
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